domingo, 19 de agosto de 2012

O fantasma de um inseto

Nova espécie encontrada em depósitos de 370 milhões de anos na Bélgica é tema da coluna de Alexander Kellner deste mês. Embora não esteja bem preservado, o fóssil pode ajudar na compreensão dos estágios iniciais da ocupação dos ambientes terrestres. 
 
Por: Alexander Kellner
 
O fantasma de um inseto
Fóssil de ‘Strudiella devonica’, inseto que media 8 milímetros de comprimento e viveu há 370 milhões de anos. Seu registro na rocha se assemelha a um ‘borrão’ de coloração escura. (foto: Nel et al)
Ao olhar para Strudiella devonica, a primeira impressão não poderia ser mais decepcionante: um verdadeiro ‘borrão’ de coloração escura que mais se parece com a sombra – ou o ‘fantasma’ – do que outrora representava um inseto. Ele somente pode ser notado por estar preservado em uma rocha de coloração mais clara. Fora do contexto geológico, esse fóssil correria grande risco de passar despercebido ou mesmo ser descartado.
Mas justamente o contexto geológico faz com que esse material seja considerado um dos principais achados dos últimos anos para o entendimento de como ocorreu a evolução dos insetos e o seu subsequente domínio dos ambientes terrestres. Não é à toa que o trabalho realizado por Romain Garrouste, do Museu Nacional de História Natural de Paris (França), e colaboradores foi recentemente publicado com destaque na prestigiosa Nature.

Um fóssil de pequenas dimensões

O único exemplar conhecido de Strudiella devonica tem 8 milímetros de comprimento – menos da metade de uma moeda de 10 centavos! É procedente de camadas encontradas na localidade conhecida como Strud, situada na província de Namur, no sul da Bélgica. Esse depósito foi formado há aproximadamente 370 milhões de anos e compreende a parte superior do período geológico denominado Devoniano, também conhecido como ‘idade dos peixes’ e no qual surgiram os primeiros tubarões.
O único exemplar conhecido de Strudiella devonica tem 8 milímetros de comprimento – menos da metade de uma moeda de 10 centavos!
Apesar de a maior parte da diversidade da vida se concentrar nos mares durante o Devoniano, foi nesse período que ocorreu uma rápida colonização dos ambientes terrestres pelas plantas – em especial, as samambaias –, que formaram extensas florestas. Também nesse período se deu o início da ocupação da terra pelos animais, tanto vertebrados como invertebrados.
Os depósitos de Strud são muito bem conhecidos na literatura científica pela ocorrência de diversos exemplares de tetrápodes (animais com quatro patas) basais. O exemplar de Strudiella foi descoberto em camadas de um antigo lago de água doce que abrigava, além de restos de plantas, diversos crustáceos e artrópodes, como os euriptéridos, popularmente conhecidos como escorpiões-marinhos, embora não tenham qualquer parentesco com os escorpiões atuais.
Apesar do diminuto tamanho, pode-se reconhecer em Strudiella uma região torácica separando a cabeça e o abdômen. Também podem ser identificados três pares de pernas, uma das principais características do grupo Hexapoda, que inclui os insetos (grupo de animais mais diversificado de todos os tempos).
Desenho de 'Strudiella devonica'
 Desenho interpretativo de 'Strudiella devonica', em que é possível observar cabeça, tórax e abdômen separados, característica que, juntamente com a presença de três pares de patas, indica tratar-se de um hexápode. (ilustração: Nel et al/ Nature)
O exemplar também apresenta um par de antenas, olhos grandes e uma mandíbula, que, segundo Romain Garrouste e colaboradores, indica uma forma onívora. Não foram encontrados restos de asas, o que levou os pesquisadores a classificar o único exemplar encontrado como uma ninfa. Ou seja, o indivíduo ainda não havia completado a sua metamorfose e, desse modo, não sabemos como era a aparência do animal adulto.

Fechando a lacuna

O nosso conhecimento a respeito da evolução dos insetos é necessariamente restrito ao registro fossilífero – como acontece, aliás, com qualquer outro grupo. O grande problema em relação aos insetos é que, pelo fato de eles serem bastante frágeis, sua preservação nas rochas é compreensivelmente mais difícil.
De acordo com os fósseis, sabemos que os insetos se originaram entre 425 milhões e 385 milhões de anos. Depois, sabe-se que houve uma diversificação durante o período Carbonífero, mais especificamente há 325 milhões de anos, quando o registro fossilífero apresenta uma variedade muito grande de formas e aponta o surgimento de vários grupos.
Entre 385 milhões e 325 milhões de anos atrás, existia uma lacuna em que praticamente não se encontrou qualquer registro de insetos nas rochas. Por isso, o achado de Strudiella devonica é realmente fantástico: embora o exemplar não esteja bem preservado, ele diminui esse intervalo para 45 milhões de anos.
A identificação desse pequeno exemplar levou os autores a sugerir que a diversificação dos insetos deve ter sido mais antiga do que se supõe
Outro ponto interessante é que a justificativa usada para o fato de não haver registros de insetos em depósitos formados entre 385 milhões e 325 milhões de anos atrás era a quantidade relativamente restrita de oxigênio na atmosfera terrestre reinante durante aqueles tempos, o que resultaria em uma baixa variedade de espécies.
Mas a identificação desse pequeno exemplar levou os autores a sugerir que a diversificação dos insetos deve ter sido mais antiga do que se supõe, hipótese que poderá ser comprovada apenas com novas descobertas. Possivelmente, a ausência de fósseis do grupo nesse período seria o que se chama de artefato tafonômico, ou seja, uma questão de não terem sido encontrados depósitos que apresentassem as condições necessárias para a preservação de animais tão frágeis como os insetos.
Seja como for, a descoberta desse único indivíduo de Strudiella devonica, além de abrir a possibilidade de novos achados, claramente demonstra que nem sempre os fósseis mais importantes são os que estão mais bem preservados. Às vezes, são os pequenos registros que nos fornecem grandes resultados.
Levando-se em conta as últimas notícias, vale dizer: nada como um dia após o outro na vida de um paleontólogo...

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

Fonte: Ciência Hoje / Colunas / Caçadores de fósseis
URL: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/o-fantasma-de-um-inseto

sábado, 18 de agosto de 2012

DESCUBRA O QUE HÁ DE COMUM ENTRE O RABO DO DINOSSAURO E A CAUDA DA NOIVA ...


DE VOLTA À PRÉ-HISTÓRIA - 11-02-2011 
    Era dia de casamento. Não me lembro de quem. Podia ter sido de uma tia, uma vizinha ou mesmo de alguém que a gente nem conhecia. A expectativa era a mesma. Os noivos sempre convidavam os que se encontravam presentes na igreja para festejarem com eles. É claro que íamos todos.
    Geralmente, o pastelzinho era frio e gorduroso, as empadinhas sem recheio, o bolo… Ah, o bolo… Igualmente sem grandes atrativos. Mas, afinal, o que fazia com que eu e meus primos tivéssemos tantas expectativas em dias de casamento?
   Naquele tempo, as ruas eram de terra e raras as que tinham calçamento de paralelepípedos. Assim, se sol fazia, era poeira para tudo quanto é lado. Se chovia, lama não faltava. As noivas, para chegarem à igreja, faziam um longo trajeto, tortuoso, e, por vezes, a pé, sempre fugindo da poeira ou se desviando da lameira.Seus vestidos longos, com véus que, por vezes, iam do altar até o meio da nave da igreja, obrigavam que as damas-de-honra segurassem, cada qual em uma ponta, a extremidade dos véus. Assim, o longo rabo da noiva não encostava no chão. A expectativa, minha e de meus primos, era se as damas-de-honra realmente honrariam sua obrigação de não sujar o vestido da noiva.
     As noivas ficavam geralmente com seus longos véus – o rabo da noiva – limpos, algo parecido com os rabos dos dinossauros, que, tampouco ao andarem, os apoiavam no chão. Na paleontologia, há uma área de conhecimento chamada icnologia, na qual são estudadas as atividades de organismos que ficaram preservadas nas rochas, como as fezes, pistas e pegadas. Em áreas ricas em pegadas fósseis, como Sousa (estado da Paraíba) e Araraquara (estado de São Paulo), apesar das centenas e centenas de pegadas e pistas fósseis, são raríssimas as marcas de arraste da cauda de dinossauros. Mas por que isso ocorre?

Essa antiga ilustração do T. rex mostra o réptil pré-histórico quase arrastando a cauda no chão. Hoje, no entanto, sabe-se que os dinossauros, ao andarem, não apoiavam seu rabo no solo (imagem: Charles R. Knight).
    Os dinossauros foram répteis ágeis, em especial os carnívoros. Basta observarmos uma galinha correndo para termos uma ideia de como se movimentavam. A cabeça voltada em direção ao solo e sua coluna vertebral paralela ao chão eram auxiliadas por sua cauda na tarefa de equilibrar o corpo enquanto corriam. Desta forma, o registro de marcas da cauda de dinossauros é extremamente raro e muito do que se conhece sobre seus rabos é o que ficou preservado como fósseis, ou seja, os ossos que se fossilizaram.

Os dinossauros foram répteis ágeis, em especial os carnívoros, como o T. rex. Sua cauda auxiliava na tarefa de equilibrar o corpo durante uma corrida (imagem: Lobstar28/Creative Commons).
Mas… E os rabos das noivas? O que restou deles? Como não encostavam no chão, ficavam limpinhos e serviam para outras noivas. Ou, então, já tinham destino certo: transformavam-se em mosquiteiros, protegendo os noivos e seus futuros filhotes da voracidade dos mosquitos. Insetos que, de certa forma, se assemelhavam, então, a vorazes dinossauros, que não deixavam rastros da cauda, mas picadas semelhantes a mordidas cheias de sangue. Tempos difíceis, mas cheios de atrativos!
Esse texto foi retirado na íntegra da Revista Ciência Hoje das Crianças. 

VALOR: 10 PONTOS

DESAFIO CLUBE DO REX







Ismar de Souza Carvalho, Departamento de Geologia, UFRJ
Desde pequeno, o autor da coluna De volta à pré-história juntava seus amigos para cavar buracos e ver o que havia dentro da Terra. Tomou gosto pela coisa e virou geólogo, apaixonado por paleontologia. 

Descoberto o maior animal carnívoro do Brasil!


NOTÍCIAS - 24-05-2011
Acalme-se! Você não corre o risco de encontrá-lo por aí. Estamos falando de um dinossauro que viveu em nosso país há cerca de 95 milhões de anos. Oxalaia quilombensis é a 18ª espécie descoberta em nossas terras. Em termos de tamanho, o gigante brasileiro pode até ser comparado ao Tiranossauro rex.
Com mais de 12 metros de altura e peso estimado entre cinco e sete toneladas, o animal é um dos maiores dinossauros já descobertos no mundo e é o campeão peso pesado na categoria comedores de carne do Brasil. Por falar em comida, de que, exatamente, essa espécie se alimentava?
“Esse dinossauro pertence a um grupo conhecido como espinossaurídeos. Até alguns anos atrás, acreditava-se que eles se alimentavam apenas de peixes. Mas, um dia, pesquisadores encontraram um dente de espinossaurídeo preso a uma vértebra de pescoço de pterossauro (réptil voador). Agora, sabemos que, além de peixes, esses animais também se alimentavam de outros répteis”, explica a paleontóloga Elaine Machado, do Museu Nacional/UFRJ.
Por ser um predador, Oxalaia quilombensis caçava sozinho, e não andava em bandos como os pequenos dinossauros, ou os herbívoros. Outra curiosidade sobre o bicho é que ele trocava de dentes com muita freqüência. Isso ficou evidenciado porque os pesquisadores encontraram dois dentes de substituição já prontos para tomar o lugar de um outro caso fosse quebrado ou perdido.
O nome Oxalaia foi escolhido em homenagem a Oxalá, o deus mais respeitado na religião africana. Já quilombensis vem da expressão quilombo, lugar onde viviam os descendentes dos primeiros escravos brasileiros, como é o caso da ilha do Cajual, no estado do Maranhão, onde o novo dinossauro foi coletado.
Mas a ligação desse dinossauro com a África vai além da escolha do nome. A descoberta de animais da espécie dos espinosaurídeos é mais comum no continente africano. Os fósseis de um deles foram encontrados no Brasil por que há milhões de anos, os continentes não eram divididos, como conhecemos hoje. Havia uma única porção de terra, que se separou ao longo do tempo. Foi por causa dessa divisão que os ancestrais do Oxalaia quilombensis vieram parar aqui.
Estudando a pré-históriaOk. Mas como se faz para encontrar um dinossauro? Na verdade, depois de ficar milhões de anos debaixo de terra e rochas, não dá para dizer que o animal estará limpinho e sorridente esperando pelos pesquisadores. O que eles encontram são restos de animais que viveram há muitos anos e que, com o passar do tempo, se tornam muito duros, como rochas. Quando descobrem os fósseis, os paleontólogos reconstituem o animal e conseguem ter uma boa idéia de como eram e como viviam os dinos da espécie.

Oxalaia quilombensis (ilustração: Maurílio  Oliveira)
Além disso, de acordo com Elaine, é preciso muito esforço e dedicação, pois a pesquisa inclui várias etapas: “Se contarmos desde a etapa de encontrar, coletar os fósseis, posteriormente a etapa de preparação (remover os ossos da rocha), estudar os fósseis encontrados, e finalmente descrever, vemos que além de ser trabalhosa, a pesquisa pode demorar, e muito, dependendo do material encontrado”, explica Elaine.
Não é incrível imaginar que criaturas enormes viviam no nosso país há milhares de anos?! Se você quiser, pode ver os fósseis do Oxalaia quilombensis e a réplica de outros dinossauros encontrados no Brasil. A exposição está no Museu Nacional/UFRJ. Bom passeio!
Serviço
Museu Nacional / UFRJ
Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ
Horário de visitação: 10h às 16h
(21) 2562-6900
http://www.museunacional.ufrj.br/

Gaiola sempre aberta


O sabiá-laranjeira e o dinossauro laranja nos dão hoje uma lição evolutiva


DE VOLTA À PRÉ-HISTÓRIA - 10-08-2012
Os sabiás são meus passarinhos prediletos e, entre eles, o sabiá-laranjeira é sem dúvida um dos mais bonitos: imponente, o peito cor de laranja, sempre com um ar de ousadia, quer ciscando pelo terreiro ou cantando sobre um abacateiro. Quando os vejo, rapidamente me lembro de uma canção que ouvia quando criança:
Gaiola aberta
A porta de uma gaiola aberta é um mundo cheio de novidades, para o qual nunca existe retorno (Foto: Adaptado de ajari / Flickr / CC BY 2.0)
Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho
Voou, voou, voou
E a menina que gostava tanto do bichinho
Chorou, chorou, chorou
Hoje, sei que a majestade dos sabiás não combina com a prisão de uma pequena gaiola, mas nem sempre pensei assim. Antigamente, na tentativa de aprisionar o que mais gostava dos sabiás – seu jeito independente e meio atrevido –, eu os caçava impiedosamente. Às vezes, lá nos campos que circundavam minha casa, ia direto aos ninhos, pegava os filhotinhos e os alimentava ainda no bico, impedindo, desde pequenos, que pudessem experimentar o sabor da liberdade.
A liberdade é algo que os sabiás e todas as aves conhecem bem, talvez pela história de seus antepassados. Acredita que os ancestrais das aves são os dinossauros? Verdade! E os dinossauros eram inconformados com sua própria condição de dinossauros, então viviam buscando novas formas de viver…
Para que andar em terra? Por que não voar e percorrer áreas mais distantes e descobrir novos locais, onde poderiam caçar e descansar? Com o risco da extinção batendo à porta, nada melhor do que novos caminhos e transformações que possibilitassem a sobrevivência.

A origem das aves modernas tem relação com os dinossauros. Muitos grupos, como os maniraptores, possuíam plumas e penas (Ilustração: Pepi)



Pesquisas paleontológicas já encontraram muitos grupos de dinossauros que possuíam plumas e penas, coloridas como nas aves. Já imaginou um dinossauro laranja? Alguns desses fósseis têm várias das características das aves modernas, mas possuem dentes em seus bicos e sua cauda, além das penas, possui vários ossos, como os encontrados nas caudas dos dinossauros.
Assim, quando analisamos os ossos de pequenos dinossauros predadores, conhecidos como terópodes, verificamos a existência de uma série de formas de transição, ou seja, espécies que estavam lá pelo meio do caminho; nem propriamente dinossauros, e muito menos aves, pelo menos como as que conhecemos atualmente.
Sabiá-laranjeira
O sabiá-laranjeira, com suas plumas laranja, sempre altivo e independente, talvez por conhecer quem foram seus ancestrais (Foto: Wikimedia Commons).
Podemos dividir esses animais de transição em dois grupos: os “dinoaves” ou dinossauros com plumas, que não eram capazes de alçar voo, e os Avialae ou dinossauros voadores, que eram capazes de realizar pequenos voos, mas nada que se compare às aves atuais.
Voltando à música de minha infância, ela continuava assim:
Sabiá fugiu pro terreiro
Foi cantar lá no abacateiro
E a menina pôs-se a chamar:
Vem cá sabiá, vem cá!
Sabemos, porém, que não é assim tão fácil fazer o passarinho voltar: o voo do sabiá é como o caminho da evolução e da transformação da vida, uma porta de gaiola aberta que possibilita um mundo cheio de novidades, sem retorno e sempre novo!

Por: Ismar de Souza Carvalho
Ismar de Souza Carvalho, Departamento de Geologia, UFRJ
Desde pequeno, o autor da coluna De volta à pré-história juntava seus amigos para cavar buracos e ver o que havia dentro da Terra. Tomou gosto pela coisa e virou geólogo, apaixonado por paleontologia.


Um cientista fascinado por pterossauros

Leia uma entrevista com Alexander Kellner, palentólogo especializado nesses dragões voadores

NOTÍCIAS - 21-05-2010

Alexander Kellner, paleontólogo do Museu Nacional da UFRJ, durante expedição em busca de fósseis no Irã.
Alexander W. A. Kellner nasceu em 1961, no principado de Liechtenstein, que fica entre a Suíça e a Áustria, na Europa. Veio para o Brasil, em 1965, com a mudança da família e abriu mão de sua nacionalidade para tornar-se um cidadão brasileiro. Formou-se e especializou-se em geologia e desde 1997 trabalha no Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá, ele se dedica à pesquisa de vertebrados fósseis e já descobriu muitas espécies. Entre elas, o dinossauro carnívoro Santanaraptor placidus e o réptil voador Thalassodromeus sethi. Em busca de novas descobertas, organiza e participa de expedições em diversas partes do mundo. Em entrevista para a Ciência Hoje das Crianças, Kellner conta um pouco de sua profissão e de seu mais recente livro sobre pterossauros. Confira!
Ciência Hoje das Crianças – Quando e por que você decidiu ser paleontólogo?
Alexander Kellner - De forma resumida, a primeira vez que me interessei pela paleontologia – que é o estudo dos fósseis, os restos dos organismos extintos – foi quando visitei o Museu Nacional com meus pais. Fiquei fascinado por aqueles esqueletos montados, que eram de preguiças gigantes. Depois disso, aprendi que a paleontologia era uma disciplina da geologia. Assim, fiz esse curso pensando em me tornar um paleontólogo. Meu interesse era entender um pouco mais da diversidade da vida que existia no passado. O mais gozado era que, quando criança, eu assistia muito ao desenho dos Herculóides. Tinha um dragão voador que me fascinava e, por ironia do destino, acabei estudando os dragões voadores, como os pterossauros também são conhecidos.
O que faz um paleontólogo?
Ele passa a maior parte do seu tempo trabalhando em pesquisa no seu gabinete, estudando os fósseis. Ele também tem que dar aulas e orientar alunos. Agora, tem uma atividade que eu, como paleontólogo, adoro: a pesquisa de campo! Nela, por algumas semanas, a gente procura indícios de fósseis. Quando os encontra, então, se inicia uma escavação. É emocionante encontrar restos de organismos que passaram milhões de anos soterrados. E você é o primeiro a encontrá-los… É uma sensação muito boa.
Seu trabalho envolve troca de conhecimento com outras áreas? Por quê?
Sim. Para um organismo se preservar, ele tem que ser levado para um local onde possa ser soterrado, coberto por sedimentos. Somente assim o fóssil não é destruído pelos animais carniceiros ou decomposto. E isso ocorre geralmente no fundo de mares, lagos ou rios. Assim, para um paleontólogo entender bem as informações que ele pode obter do fóssil, ele precisa entender também das rochas sedimentares onde ele é preservado. Para isso, são necessários conhecimentos da geologia. Além disso, quando ele procura entender como o organismo – agora representado por parte: ossos, dentes etc. – funcionava e vivia, precisa de conhecimentos da biologia.
Quando criança, você pensou em ter outra profissão?
Muitas. Primeiro pensei em ser astronauta. Depois, engenheiro eletrônico. Quando estava mais velho, pensei em fazer administração de empresas. Por fim, decidi cursar geologia, para me dedicar a pesquisas dos fósseis.
Pterossauros – os senhores do céu do Brasil é o seu primeiro livro?
Na verdade, este é o meu quinto livro. Outros foram: a minha tese de doutorado, um catálogo de fósseis, um livreto de 12 páginas com brincadeiras para crianças e o livro O Brasil no tempo dos dinossauros, que está esgotado. O livro Pterossauros – os senhores do céu do Brasil , no entanto, tem uma diferença fundamental em relação aos outros e a todos os livros que foram publicados na língua portuguesa: ele é de divulgação científica, conta um pouco os bastidores de importantes descobertas feitas no Brasil. Ele é destinado a pessoas que gostam de ler – não apenas para quem tem interesse na paleontologia! É um livro que tem por objetivo entreter as pessoas, mostrando como a pesquisa dos fósseis pode ser fascinante.
O que você diria para as crianças que pensam em se paleontólogas?
Primeiro, estudem bastante. Nada é melhor do que ter um conhecimento geral sobre vários assuntos, mesmo que eles não sejam utilizados diretamente na pesquisa do “futuro-paleontólogo”. Depois, procurem ler um pouco sobre o assunto. Se ainda tiverem interesse nos fósseis, devem fazer um curso de geologia ou de biologia, que recomendo mais. Durante o curso, procurem fazer um estágio em algum lugar onde exista paleontologia. Esta é a maneira mais segura de a pessoa saber se gosta ou não da pesquisa dos fósseis. Lembrem-se: o principal quando se escolhe uma profissão é ser feliz com ela! Eu sou, espero que vocês também sejam, independentemente da profissão que escolherem! Espero que gostem do livro e se deixem levar pelas asas dos pterossauros ao mundo fascinante da paleontologia!

DINOSSAURO COM PENAS?

Fóssil de gigante pré-histórico com penas sugere que outros dinos também poderiam ter esse revestimento

Para quem estuda fósseis, cada descoberta pode trazer uma surpresa. Com o dinossauro gigante Yutyrannus huali, descoberto na China, não foi diferente. Com cerca de nove metros de comprimento e 1400 quilos, a nova espécie possuía algo que eles ainda não tinham encontrado em um fóssil de dinossauro desse tamanho: penas!
um grupo de Yutyrannus e, no chão à esquerda, dois Beipiaosaurus
É provável que o Y.huali tenha sido um predador ativo e que saísse para caçar em bando. Na ilustração, um grupo de Yutyrannus e, no chão à esquerda, dois Beipiaosaurus (Ilustração: Brian Choo)

Até então, o maior dinossauro com penas conhecido era o Beipiaosaurus, que pesava 40 vezes menos. Alexander Kellner, paleontólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que as penas de Y. huali eram diferentes e mais simples que as penas das aves atuais.
Y. huali viveu no período considerado o mais frio do Cretáceo – entre 130 e 110 milhões de anos atrás. Segundo o paleontólogo Xing Xu, da Academia Chinesa de Ciências, suas penas provavelmente funcionavam como um isolante, protegendo o dinossauro contra o frio.
Ele conta que as penas só foram preservadas em algumas partes do dinossauro e que, por isso, não dá para saber se estavam presentes no corpo todo. Caso fossem restritas a apenas algumas regiões, como a cauda, elas podem ter tido outra função: a de se comunicar, para atrair ou alertar um outro indivíduo, por exemplo.
Fóssil
Fóssil da cauda do Yutyrannus huali, mostrando os filamentos que seriam as penas. Ele é o maior dinossauro com penas que se conhece até o momento (Foto: Zang Hailong)
Você pode estar se perguntando: e outros dinossauros gigantes? Também tinham penas? Com a nova descoberta, essa possibilidade vem à tona, mas, devido à ausência de registros fósseis, ainda não se tem certeza sobre isso.
Se você pensou logo no Tyrannosaurus rex, saiba que ele pode ter tido penas, mas provavelmente elas não cobriam seu corpo todo. “Acreditamos que o T. rex não era totalmente coberto por penas porque ele viveu em um ambiente mais quente que o Y. huali”, explica Xing Xu. Faz sentido – você não anda por aí de casaco quando está quente, não é?
Enfim, a descoberta do T. huali mostra como ainda há muito o que se descobrir sobre dinossauros. “Esse dino é mais uma comprovação de como é fascinante a pesquisa dos fósseis”, comenta Alexander. “E ainda existe muito mais para ser desvendado pelas futuras gerações de paleontólogos. Algum leitor mirim se habilita?”

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Recapturando...







Incrustação Ocorre quando substâncias trazidas pelas águas que se infiltram no subsolo e se depositam em torno do animal ou planta, revestindo-o, como por exemplo acontece em animais que morreram no interior de cavernas. Os materiais mais comuns são calcite, pirite, limonite e sílica. 

Mineralização – Ocorre quando substâncias minerais são depositadas em cavidades existentes em ossos e troncos. É assim que se forma a madeira petrificada. 

Recristalização - Ocorre quando se dá um rearranjo da estrutura cristalina de um mineral, dando-lhe mais estabilidade, como por exemplo a transformação de aragonite em calcite. 

Carbonificação - ocorre quando há perda de substâncias voláteis restando uma película de carbono. É mais frequente nos restos de seres vivos contendo quitina, celulose ou queratina. 

Mumificação - ocorre quando o ser vivo ficou aprisionado em âmbar ou em gelo. É o mais raro de todos os tipos de fossilização, mas devido ao âmbar (resina) e ao gelo, o ser vivo conserva as suas partes moles, dando-nos informações preciosas à cerca do ser vivo. 

Moldagem - Processo mais vulgar, resulta do preenchimento interno das partes duras do ser vivo por sedimentos, ou da moldagem da parte externa das partes duras do ser vivo. (Para se ter a noção real do ser vivo é necessário ter o molde e o contramolde)